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quinta-feira, 3 de março de 2011

O Pacto Imperial



O Brasil, país de proporções continentais, é constituído por regiões que pouco têm em comum além do idioma oficial e das instituições do Estado Federativo do qual fazem parte. Ao contrário da América Espanhola, que se fragmentou em diversos países após os processos de Independência da Espanha, a Colônia luso-americana permaneceu unida após a separação de Portugal. Como isso se deu? Como foi possível conciliar sob a égide de um único Estado interesses e costumes tão diversos?

Miriam Dolhnikoff analisa questões como essas em seu trabalho intituladoO Pacto Imperial: origens do Federalismo no Brasil do século XIX. Originalmente apresentado como tese de Doutorado na Universidade de São Paulo (USP), o trabalho discute a forma como, após a Independência, as elites buscaram assegurar uma participação mais ativa na construção do novo Estado, a fim de garantir a manutenção de seus próprios interesses e privilégios. Dolhnikoff menciona, como alternativas inseridas no cenário político da época, modelos como a República, Monarquia, Estado Unitário ou Federação. No choque entre estes projetos, que podemos simplificar aqui basicamente como uma disputa entre centralização e autonomia, saiu vencedor aquele que servia aos objetivos das elites provinciais, possibilitando-lhes a administração de suas próprias províncias e a chance de participação no governo central através dos representantes que elegiam para a Câmara dos Deputados: o federalismo.

Segundo a historiadora, a escolha pelo federalismo é uma “inapelável vocação americana”, embora haja diferenças patentes, reconhecidas até pelos pregadores do referido modelo, entre a forma brasileira e a norte-americana. Enquanto este último tomara os rumos republicano e democrático, o primeiro optava pela monarquia e começava a se estruturar de tal forma que apenas a elite dominante possuía representatividade. O federalismo desejado para o Estado Brasileiro devia ser “entendido como uma conjugação entre autonomia provincial e a participação das elites provinciais no governo central”.

Assim, o projeto de reforma constitucional que se segue após a abdicação de D. Pedro I, que se tornara a esta altura um obstáculo político para os setores dominantes, reconhece o Brasil como uma monarquia federativa, marcando assim a vitória definitiva do federalismo sobre as alternativas rivais. A autonomia conquistada pelas províncias ajudou a preservar unidos os territórios, já que os “grupos dominantes locais (...) encontravam, no âmago do Estado, nichos de acomodação confortáveis o suficiente para dispersar os vôos separatistas.

A guisa de conclusão, o livro de Miriam Dolhnikoff ajuda a revelar a História do Brasil como a história das elites que lutam para a manutenção de uma ordem favorável a si próprias, manipulando quando necessário, corrompendo quando necessário, forjando e destruindo alianças quando necessário. O Brasil atual é produto de sua História e não nega suas origens, sendo ainda um país de elites engajadas em projetos de autopreservação, cujo alcance e natureza muitas vezes não se percebe, seja pela proximidade de seus analistas com os eventos, seja pela simples alienação das camadas que se encontram mais abaixo.    

Imaginários 3



Achar um espaço ao sol, em qualquer nicho de atividade, é coisa complicada. Piora quando o referido nicho é uma, digamos, atividade artística. Se você que está lendo isso e tem pretensões de escrever O Grande Romance depois da faculdade ou quando o trabalho der um tempo para sua mente brilhante entrar no ritmo (o que, sinto dizer, só vai acontecer quando for um aposentado, desempregado ou escrever obras primas em trinta dias de férias), com certeza já devorou um sem número de dicas de escritores, processos criativos, teorias da Literatura e, como aquele brinquedo favorito, desconstruiu textos dos autores que gosta para entender como funcionam. (Caso diga que não fez/faz nada disso você não está sendo muito sincero ou não se esforça muito, certo?). Espremido entre coisas como “saia e veja as pessoas”, “não mande seu original sem ser solicitado” e “gaste seu dinheiro com cerveja” encontramos com freqüência um “publique em antologias”.

– Hã? Como é? – eu sempre resmungava, surpreso, quando esbarrava como algo do tipo. – E como vou encontrar antologias, senhor sabichão?

Digamos que talvez eu não estivesse procurando nos lugares certos. Mais ou menos um ano atrás, enquanto singrava alegremente os mares do fandom brasileiro, esbarrei com dois livrinhos com o logotipo de um dragão na capa. Tratava-se dos dois primeiros volumes da coleção Imaginários, da Editora Draco, com uma lista de nomes que, se não são famosos nos círculos da literatura do cotidiano (termo cunhado pelo Eric Novello e que me aproprio aqui), tem seu peso na Ficção Especulativa brazuca (e portuga). O objetivo do editor Erick Santos era priorizar a literatura produzida aqui, apostando na qualidade dos escritores brasileiros, que em seus grandes momentos não ficam atrás dos estrangeiros.

Um ano depois, a idéia da editora tem  dado resultados. O dragão está soprando novos títulos com espantosa velocidade, visando o público além do tal fandom. Em meio a tantos livros já lançados e outros tantos chegando – que inclusive já falamos aqui no Coelho – um é particularmente especial para este que vos tecla: o terceiro volume da coleção Imaginários. Pode adivinhar por quê? Aí vai uma pista, escondida nos contos que compõem o volume. As sinopses foram escritas por seus autores a pedido de Douglas MCT:

BONIFRATE é uma singela homenagem a Pinóquio, do Collodi.
Concebi a trama usando alguns elementos steampunk e de Fantasia, com um alto grau de estranheza embutidos aqui e ali. A história, por mais que tenha meu estilo, é uma experimentação proposital de narrativa e condução de plot. Para o clima, me inspirei em alguns conceitos de Matrix e, para elaborar certas cenas e situações, busquei bases em Watchmen. Há ali a essência do Grande Irmão, construtos com coração a vapor, espíritos e uma força maior — e talvez mecânica — conduzindo as peças.

É uma ficção alternativa, que brinca com as incógnitas e tenta fazer o leitor se perder em algumas esquinas, num lugar não definido. A ideia ao escrever Bonifrate, era deixar a imaginação de quem lê complementar os espaços vagos de propósito no texto, para chegar ao seu desfecho próprio, único. Quero que essa leitura seja uma experiência para o leitor, como foi para mim ao escrevê-la.


A TORRE DAS ALMAS | Eduardo Spohr
No universo de A Batalha do Apocalipse, um grupo de anjos de Gabriel sai em missão e descobre pistas do que pode ser uma conspiração ao investigar na Terra aquilo que parece ser um simples caso de espírito aprisionado.

BREVE RELATO DA ASCENSÃO DO PAPA ALEXANDRE IX | Marcelo Assami
Monstros são caçados perto do Vaticano, uma família brasileira decide eleger um novo Papa e Gaetano Casanova escreve novas memórias.

AS NOIVAS BRANCAS | Rober Pinheiro
É o segundo conto de Ficção Científica que escrevi, e narra as desventuras bem o estilo ao infinito e além de uma personagem conhecida do nosso folclore, porém deslocada de seu contexto local e inserida num ambiente totalmente diferente.

DIES IRAE | Lidia Zuin
Pelas ruas de uma metrópole, sobrevive a pútrida e degenerada figura de uma hacker engolida por substâncias narcóticas. Consumida por seu comportamento junkie, Lynx vive sob condições precárias e sob a ameaça de ser morta por um grupo de jovens violentos, os rivetheads. Dies Irae é um conto cyberpunk que viaja por tribos urbanas e arquétipos de um futuro perturbado por gangues, megacorporações e por uma incrível e insensata sensação de falta de limites.

VIDA E MORTE DO ÚLTIMO ASTRO PORNÔ DA TERRA | Marcelo Galvão
Em um mundo no qual humanos perderam seus empregos para robôs, um ex-ator pornô tenta recuperar seus dias de glória a qualquer preço.

CORRE, JOÃO, CORRE | Cirilo Lemos
João é um fracassado. Marido medíocre, pai ausente e carente de senso prático, tudo o que ele mais deseja na vida é ser um homem melhor. Quando estranhos vultos vêm atrás de seu filho, o que ele pode fazer além de correr?

UMA SEGUNDA OPINIÃO | Fernando Santos de Oliveira
Uma garota que quer ser popular e chamar a atenção do menino que gosta, age sob os conselhos de alguém terrível e pode se tornar o que mais odeia.

MARIA E A FADA | Ana Cristina Rodrigues
É uma fantasia histórica passada no século XV, que trata da sucessão do ducado da Borgonha e da lenda da Melusina.

O PRIMEIRO CONTACTO | Fábio Fernandes
É uma homenagem-sátira à space-opera, escrita à maneira de um de seus representantes máximos, Edmond Hamilton. Na verdade, é uma espécie de transição do steampunk para a space opera, pois misturo personagens já usados em histórias steamers com personalidades da vida real para descrever como poderia ser um contato com alienígenas nos anos 1920. O conto tem de tudo um pouco: velozes espaçonaves, bravos soldados do espaço, malignos seres de outros mundos e um final-surpresa, claro.

“Publique em antologias”. Finalmente entendi.

Imaginários 3 pode ser encontrado aqui.

Zona do Crepúsculo (sem vampiros que brilham)

Crepúsculo sem vampiros brilhantes




“Entraremos numa dimensão não só de imagem e som, mas da mente. Sua fronteira ultrapassa a imaginação. Um cartaz diz: Próxima Parada: Zona do Crepúsculo.”



Quando eu andava sortudo, tive o prazer de receber das mãos do Octávio Aragão, o pai da Intempol, um presentinho esperado com ansiedade: o livro Galeria do Sobrenatural, uma coletânea para lá de especial publicada pela editora Terracota em 2009. Logo na apresentação, ficamos sabendo que a seleção de contos organizada por Silvio Alexandre é uma homenagem ao seriado Além da Imaginação, criado por Rod Serling, do qual – e eu lamento dizer aqui – não me lembro de um único episódio sequer.


Partindo desse princípio, é de se imaginar que todas as histórias sigam o climão da série, aquela coisa do estranho misturado ao cotidiano, do sobrenatural, do bizarro, certo?


Certíssimo.


(Eu acho: lembre-se do que eu disse cinco ou seis linhas acima).


O livro conta com uma série de autores gabaritados, que em nenhum momento abandonam seu próprio estilo a fim de se ajustar à proposta da antologia. Com isso, conseguem manter um espírito que não faz feio ao seriado e ao mesmo tempo estabelece uma identidade própria. Isso não é algo fácil de se conseguir.


Participam do livro nomes como Andréa Del Fuego, com o conto introdutório pós-apocalíptico metalingüístico Blade Zone. A seguir, aos moldes de Moacyr Scliar, temos Braulio Tavares contando depressa a história com jeitão de interior d’O homem que perdeu seu reflexoClaudio Brites vem com Só um acontecido, bem mais insólito que o título faz parecer. Claudio Villa, com A cápsula, fala sobre uma civilização que descobre os restos de outra. Danny Marks, em Limites, conta (ou não) o que aconteceu com o Dr. Rose. Um dos gurus da FCB, Fábio Fernandes, trata de questões raciais (é, eu sei, raças não existem dentro da família humana) de forma interessante em O Haiti é aqui. Uma das damas que compõem a trindade das autoras vampíricas brazucas, temos Giulia Moon com No céu, um bater de asas. Vi a Giulia na Bienal do Livro do Riocentro, mas fiquei com vergonha de falar com ela. Timidez é foda. O demônio está chamando é o título do texto de Jana Lauxen, sobre uma ligação do você-sabe-quem para um sujeito comum. Lúcio sempre-excelente Manfredi, senhor de uma prosa toda própria, ataca com Valtenice olhou no espelho e mostra o porquê daquelas duas palavrinhas que coloquei entre seus dois nomes. O português Luís Filipe Silva, um dos autores de Terrarium (que alguma editora daqui podia publicar), escreveu uma impressionante história sobre o último homem da Terra em Dormindo com o inimigo – e nem precisou ter a Julia Roberts. Um dos melhores contos do livro, na minha opinião de mero leitor sem pretensão a crítico. Já Márcia Olivieri nos brinda com uma FC que fala de um certo Projeto Metagênese no conto O último crepúsculo. Bem na linha Twilight Zone,Mario Carneiro Jr. descreve Um estranho incidente noturnoMax Mallmannmistura freiras, seqüestradores e nomes gregos em Hábito noturnoMiguel Carqueija, em A ponte, faz Priscilla (morena e magra) pensar em mundos paralelos. E eis que chega o conto do Octávio, Armageddon em Madureira, para o qual ele me criou uma ilustração toda original em forma de autógrafo. Ou seria o contrário? Regina Drummond, no conto Herança, fala sobre as 39 plantas da tia Adélia que ficaram para sua sobrinha. Em Apenas sonhosShirley Souzaquestiona a natureza da realidade e... dos sonhos. A última valsa, conto curtinho deTatiana Alves, fala sobre um sujeito que encontra um estranho navio, ou foi encontrado por ele. Fechando a coletânea temos um conto/HQ escrito por Braulio Tavares e ilustrada por Cavani Rosas: malassombrado, sobre medo de morcegos e muita imaginação. Pena que é pequenino-nino-nino.


Um livro curto (acabei no mesmo dia), atraente tanto no aspecto físico quanto no recheio. Não sou crítico, nem tenho nenhuma ferramenta para julgar os méritos ou os defeitos de um livro que não se baseie puramente no meu gosto como leitor e minha curta experiência de enfileirador de frases. Mas posso dizer, sem medo de errar, que Galeria do Sobrenatural está entre os melhores trabalhos nacionais aos quais tive acesso ano passado, e não peca pela irregularidade.


Recomendadíssimo.

Solarium 2



Mais uma antologia da editora Multifoco me chega às mãos, agora por intermédio do jovem Matheus A. Quinan, cujo blog você pode conferir aqui. O livro: Solarium 2, uma coletânea de contos de Ficção Científica editada por Frodo Oliveira. Desta vez, não será possível falar um pouquinho de cada conto. Explico: tenho o hábito, adquirido nas resenhas e fichamentos que a faculdade me exigia, de afundar em um mar de anotações rabiscadas num velho caderno. A má notícia é que os guris aqui de casa transformaram o pobrezinho numa pasta gosmenta. Babau anotações. Façamos um parágrafo de silêncio.

(...)
 
Pronto.
            
O caderno não existe mais. Eu, no entanto, tenho uma coisa ou outra pra dizer.
            
Solarium 2 se parece com os cadernos semestrais de departamentos acadêmicos, como a Tempo, da UFF, ou a revista Signum, dedicada aos estudos da Idade Média. A ilustração da capa, uma estranha espaçonave metálica se aproximando da Terra, é bonita. Mas parece reproduzir, com substancial ajuda das fontes selecionadas, o velho paradigma entranhado na cabeças dos leitores de fora do fandom: escapismo, clichês, falta de profundidade e irrelevância literária.
            
Eu realmente estou cansado desse tipo de visão. Mas como mudá-la, se até o que produzimos é um reflexo dessa percepção? Boa pergunta. Mas alguns contos da antologia sugerem que há autores iniciantes se debatendo contra o status quo. Apesar das derrapadas, como excesso de exclamações e abuso da caixa alta, o germe da forma, tão importante quanto a idéia, já começa a brotar e ser um tiquinho mais valorizada. Longe do ideal, claro, mas um bom sinal. A quantidade está aí, como mostra o levantamento de Ana Cristina Rodrigues. Agora, rumo à qualidade. E um pouco de coragem de quebrar velhos moldes.
            
A seguir, os contos que compõem a antologia e seus autores. Meu caderninho está fazendo falta. Rezem por sua alma pautada. A ascenção de Maya, de Ronaldo Luiz Souza; 777, de Igor Silva; A estrela cadente, de Luiz de Souza; Beta teste, de Rubem Cabral; Heliófilos, de J. Miguel; Memórias, de Frank Bacural; O último reduto, de José Geraldo Gouvêa; O E.T. Espião, de Lauro Winck; A nave dos deuses, de Emanoel Ferreira; Brincando de Deus, de Bia Machado; Herança, de Daniel Lima; Nem tudo é o que aparenta, de Henrique Weizenmann; Onda atômica, de Duda Falcão; 2109 – O Programa Titã, de Alex Lopes; A sala das garrafas, de Matheus A. Quinan; Entre o Céu e a Terra, de Jota Fox e Misael Archanjo; Les habitants du Soleil, de Cássio Michelon; O Espelho, de Rubem Cabral; Roswell, de Humberto Amaral; Aconteceu num dia quente de verão, de Luiz Mendes Jr; Experimento, de Fillipe Jardim; Manuscrito de viagem, de Jorge Eduardo Magalhães;O lado oculto da Lua, de Frodo Oliveira; O sobrevivente, de Bruno Borges; Sapiens, de Cátia Cernov.

Dos contos acima listados, destaco A ascenção de Maya. Com algumas frases a menos, Ronaldo Luiz Souza teria produzido um grande conto.

Da arte interna, destaco a ilustração da página 70, O E.T. Espião. Jota Fox e Jou Martins acertaram em cheio. Curiosamente, a ilustração da página 74 é bem fraquinha. Um bom exemplo dos altos e baixos que acometem a antologia.

Minha grande queixa em relação ao livro: letras quase impossíveis de ler de tão pequenas e apagadas, o que torna o livro muito cansativo. O nome dos autores logo acima dos títulos de cada trabalho está praticamente invisível. E a explicação do editor para isso não convenceu.

Positivo: capa agradável; contos divertidos quando arriscam ir mais além.

Negativo: fontes lavadas, parecem fotocópias; perpetuação da imagem padrão da FC como gênero menor para o público extra-fandom; abuso de exclamações e caixa alta.

Você pode adquirir um exemplar de Solarium 2 aqui; e encontrar alguns de seus autores aqui.  

Pacto de Monstros

A capa é mais bonita pessoalmente



Recebi ontem, uma terça-feira às portas de 2010, a coletânea Pacto de Monstros, gentilmente enviada pelo meu amigo Daniel Folador Rossi. Como é de praxe na comunidade Escritores de Fantasia e FC do Orkut, aquele que ganha um livro devolve uma resenha. E aqui estou. Sempre fui da opinião de que, se eu não tenho algo bom para falar, é melhor ficar na minha. Não é um bom princípio para um resenhista crítico, mas como não há nenhum aqui – nem pretensão para tanto – fico com ele mesmo. Valendo-se deste espírito, fico à vontade para falar também das coisas ruins.

Lançado pela editora Multifoco através do selo Anthology, o primeiro ponto de interesse de Pacto de Monstros é o visual do livro, capa e encadernação. Quando vi a capa da antologia espalhada pela rede, confesso que não achei atraente. Tenho de dar o braço a torcer ao tê-lo em mãos: a capa do livro até que é bonita. Os tons de cinza são muito mais vivos do que a tela do computador faz parecer. A ilustração fica bem mais impressionante. A impressão do texto, no entanto, deixa a desejar: apagada demais, o que dificulta um bocado a leitura, principalmente para aqueles que, como eu, não enxergam lá muito bem. As ilustrações de Zambi são competentes, algumas bem legais, como a do conto Colônia- Estágio I. Acredito, porém, que criaria mais clima se a arte fosse feita em contrastes de preto e branco. O cinza me soa Coleção Vaga-Lume demais. Idiossincrasia, apenas.

O primeiro conto da antologia é V, de Alex Lopes. Não cumpre a intenção do livro, que é evocar o terror aos moldes de Poe e Lovecraft. Os monstros são iluminados demais, o que causa pouco efeito de terror. O foco nos diálogos e a falta de detalhes descritivos não permitem a criação da atmosfera certa. Não funciona como conto de abertura. O que não quer dizer que o autor não tenha seus méritos.

A Chama da Vela, de Heitor V. Serpa. Boa escolha para o título. Boa atmosfera, mas sem muitos detalhes e reticências em excesso. O plot me lembrou um filme de 1992, O Mistério de Candyman, que por sua vez se baseia em Clive Barker. O último parágrafo toma algum fôlego.

Arquivo 13, de Adriana Rodrigues. Só me pareceu um tiquinho inverossímil doze pessoas serem mortas, uma por noite, e a faculdade continuar aberta, só com um vigia. A narrativa é razoável, mas quando chega na metade fica um pouco confusa: é preciso reler algumas passagens para entender quem fez o quê.

Caçador de Aberrações, de Andréa Cisne. Conto do ponto de vista de um vampiro que, para quem tem trezentos anos de idade, é um bocado bobão. Aqui não há clima de terror, mas de humor. Após ficar o dia todo num porta-malas, o vampiro menciona o nome de seu salvador, que se surpreende. Quando inquirido por este sobre o fato, de todas as explicações possíveis, racionais e perfeitamente aceitáveis, o vampiro meio que se atrapalha e deixa transparecer que esconde alguma coisa. E ainda acaba trabalhando para o sujeito, resmungando o tempo todo. Também tem um lobisomem na história. É engraçado, mas não espere por sustos.

Colônia – Estágio I, de Misael Espírito Santo e Jota Fox. Uma idéia interessante. Epílogo desnecessário, na minha opinião.

Condor Zumbi (o pai da noite dos mortos), de Ghad Arddhu. Bem escrito, algumas partes evocam momentos de pura tristeza. A parte em itálico é um pouco cansativa de ler devido à impressão lavada. Na parte da lenda, tem-se a impressão de estar lendo um tribebook de Lobisomem: O Apocalipse.

Fábula Imoral, de Luiz Hasse. Um longo diálogo, pouco descritivo, entre um jovem e o Diabo. Humor negro, mas não terror. Divertido.

Glare, de José Roberto Vieira. O autor em breve lançará seu romanceBaronato de Shoah pela Draco – e, como lhe disse numa ocasião, escreve muito rápido. Bom, seu trabalho aqui é um conto de vampiro. A narrativa é dramalhesca, o que combina com a criatura. Trata-se de um jogo de caça. Gostei das indicações do clima no princípio de cada parte, como num roteiro. O último parágrafo é uma citação direta de Nietzsche.

Inércia, de Frank Bacural. Bom conto, com uma idéia perturbadora, principalmente pelo inteligente recurso (do qual senti falta em muitos contos) de não explicar nada. Quanto menos se mostra do monstro, menores as chances de se ver o zíper da fantasia. Bacural vale-se deste artifício e deixa o leitor – eu, no caso – perguntando o que diabos foi aquilo. Lembrou um pouco Colin Cosmo e os Supernaturalistas.

Kenneth McSmith, de Daniel Folador Rossi. Ritmo objetivo. Um pouco seco, é verdade, mas sem abrir mão das descrições. Bom conto, uma mistura da saga Newcastle de John Constantine (Hellblazer #11, Vertigo #5 no Brasil) com As Ursas, de Moacyr Scliar, e pitadas de Arquivo X, ou Fringe ou mesmo Bones.

La Sayona, de Frank Félix. Diálogos diretos e pouca descrição, o que muito crítico por aí aponta como defeitos do jovem autor pós-geração 90. Um campônio venezuelano chamado Harold Elric soa mais improvável que o fantasma, que posso jurar já ter visto num episódio de Supernatural. No entanto, é um dos contos que mais capta o espírito da antologia.

M3do, de Mushi-San. Já tive oportunidade de ler este antes. A linguagem utilizada para o robô ficou bem legal. O conto é bom, mas ficaria melhor numa coletânea de ficção científica. Infelizmente, o robô não pintou a parede com o sangue do moleque mimado filho da puta.

Museu do Terror, de Duda Falcão. Também já havia lido. Nenhum terror criado pela imaginação humana é capaz de superar o terror real do qual somos capazes. Essa é a mensagem.

O Espírito do Lobo, Jones V. Gonçalves. Boa redação, mas um pouco previsível.

O Leitor e o Menino do Porco, de Félix Maranganha. Outro que tive a oportunidade de ler antes. Regionalista, seu conto é uma pequena pérola. Mas também não é de terror.
O Preço, de Monica A. Sicuro. Mesmo título de um conto de Neil Gaiman – que também tem um gato. O conto de Monica traz uma versão sem sangue de Barthory, e uma carga suave de erotismo. Gostei do gato ser branco, escapando do preto-padrão.

Sonho de Verão, de Deborah Brandão. Mmm... Exatamente como o título, o conto soa mais como uma fantasia de moça romântica que como uma narrativa de terror. E usa um tipo de final satirizado em Sérgio Aragonés massacra a Marvel. Também utiliza o recurso da falta de explicação, o que demonstra que a autora está encontrando o rumo.

Poe (in memorian), de Rúbia Cunha. Sombrio, melancólico. Bom conto. E tem o corvo.
Apesar da irregularidade dos contos, onde claramente se vê que nem todos foram escritos especificamente para a coletânea, é bom ver uma geração de jovens autores buscando espaço. Chato que haja tão pouca divulgação dos livros finalizados. Uma meta para 2010, quem sabe.


Você pode adquirir seu exemplar aqui.

Tio Petros e a Conjectura de Goldbach


A Matemática não é uma ciência que vá muito com a minha cara. Nem eu com a dela, por isso estamos quites. Ela me proporcionou alguns dos mais angustiantes momentos da minha vida escolar. Mas não guardo rancor, desde que continuemos bem afastados. Devo confessar, porém – e vocês não sabem como isso me dói – que uma das mais agradáveis leituras que fiz esse ano tinha a dita cuja como tema. O nome do livro:Tio Petros e a Conjectura de Goldbach.

Passei várias vezes por ele na prateleira da biblioteca, sempre torcendo o nariz quando lia seu subtítulo, “um romance sobre os desafios da Matemática.” Argh, eu pensava, e largava de volta o coitado lá sem dar nenhuma chance de defesa.

Eis que num belo fim de tarde, sofrendo de síndrome de abstinência da leitura, resolvi arriscar. Que mal faria, não é mesmo?

Para minha surpresa, me vi preso ao romance por dois dias seguidos. O livro conta a história de um jovem grego -- não nomeado -- que se interessa cada vez mais em desvendar o passado de um excêntrico tio, tido pelos irmãos como um fracassado de quem se deve manter distância. Ao descobrir que o tio (o Petros do título) fora um grande matemático, decide também ingressar na carreira, esperando a benção deste. Após aprender a lidar com a frieza de Petros, o rapaz começa a desvendar seu passado e descobre que tio fora um dos mais brilhantes matemáticos do século, contemporâneo e colega de Hardy, Littlewood e Turing, presentes na história. Sua meta era ser um novo Arquimedes. Para tanto, ele dedicou a vida a resolver um dos grandes mistérios dos números, a Conjectura de Goldbach.

Mas o que diabos vem a ser a Conjectura de Goldbach? É melhor deixar a explicação para Bernardo Esteves, da Revista Ciência Hoje (22/6/2001):

"Todos os números pares maiores que 2 são iguais à soma de dois números primos. A simples afirmativa não parece esconder um dos mais famosos e difíceis problemas não resolvidos da matemática. Quando se tenta verificar sua validade, a hipótese parece plausível: 8 = 3 + 5; 10 = 3 + 7; 12 = 5 + 7 ... Embora computadores já tenham constatado a veracidade da hipótese para números da ordem de 1014, verificações empíricas não bastam para demonstrá-la. (...) O célebre problema, conhecido como a 'conjectura de Goldbach', foi formulado em 1742 numa carta do matemático prussiano Christian Goldbach (1690-1764) ao colega suíço Leonhard Euler (1707-1783). Desde então, a hipótese tem desafiado - e derrotado - estudiosos notáveis da matemática.

Tio Petros dedica sua vida a resolução do enigma que o lançaria aos píncaros acadêmicos. Mas o que vemos é um homem que cada vez mais se desespera com a possibilidade de desperdiçar a vida com uma miragem, o que o torna cada vez mais recluso, amargo e frustrado.

Fica aí minha sugestão. Tio Petros e a Conjectura de Goldbach (Editora 34) é leve, despretensioso e divertido, com um final tão enigmático quanto a tal conjectura. Nada que vá mudar a vida de ninguém, mas, se você é como eu e vive em rota de colisão com a matemática, vai encará-la de forma mais positiva ao fechar o livro. Por uns dois ou três minutos.